Juros Altos: Inflação e Recessão

A lógica de causa e efeito leva a constatações sobre qual é efetivamente a eficácia de juros altos.

Juros mais altos não são eficazes para controlar preços de bens de consumo não duráveis, como alimentos. Pelo contrário, juros mais altos podem contribuir para alta, já que eles encarecem o capital necessário para a produção e comercialização, encarecimento que será inevitavelmente repassado para o consumidor, portanto causando mais inflação. Não são também eficazes para impedir a situação de preços mais altos de destes bens de consumo, quando essa situação é causada por uma ou mais das seguintes principais razões: condições sazonais; variações climáticas; e custos de falta ou deficiência de infraestrutura.

Juros mais altos não são tampouco eficazes para um país controlar ou impedir a variação externa de preços de commodities, como a causa condicionadora dos preços praticados internamente no país, pois o correspondente porte do mercado internacional suplanta em muito a capacidade de influência de ações de nível nacional.

É bem verdade que juros altos desestimulam a formação de estoques especuladores propiciadores de elevação de preços, mas não são necessários para tanto, já que o mesmo efeito pode ser garantido por ações governamentais, através de estoques e ou importações reguladoras.

Juros mais altos não são eficazes para controlar, impedir alta de bens duráveis, como bens industriais e imóveis. A alta de bens deste tipo é causada por uma ou mais das seguintes razões: custos de produção e comercialização, inclusive e principalmente custos financeiros que juros mais altos só podem agravar; falta de concorrência; ausência de economia de escala, devido a demanda reprimida por falta de poder aquisitivo ou, no caso de imóveis, demanda em excesso por falta de oferta ou por especulação. No caso de bens industriais, além da ação de monopólios, oligopólios e cartéis, há também a situação do câmbio e custos de insumos importados ou, ainda, de oportunidades no mercado externo de ajustar valores de bens exportados, que acabam sendo praticados também no mercado interno, para equalizar obtenção de lucros; esta última situação é bem visível na indústria de alimentos industrializados.

Por um lado, o que os juros altos fazem é induzir todos que detêm recursos financeiros ao papel de rentistas, incluídos cidadãos poupadores, empresários e, com papel significativo, os fundos de pensão e de previdência de trabalhadores; a consequência é o desvio de recursos que iriam para investimentos produtivos, portanto o efeito é inibir crescimento da economia, provocando desemprego e criando tendência de elevação de preços pela estagnação da oferta. Por outro lado, o que fazem é também provocar alta de preços, pois aumentam o custo de capital para produção e comercialização, acabando por incentivar vendas a maior prazo, já que a maioria dos consumidores de baixa renda que compra a prazo decide pelo valor da prestação que consegue pagar e não pelo valor do bem adquirido ou dos juros embutidos neste valor. E nesse caso submete os mais pobres à armadilha do descontrole de gastos, tornando-os vítimas dos juros dos cartões de crédito e cheques especiais¹

Ao provocar desemprego, juros altos são eficazes para gerar recessão, por reprimir o consumo. Se a causa de preços inflacionados fosse única e exclusivamente o excesso de demanda consumidora, então certamente juros altos seriam secundariamente eficazes para conter o consumo, face ao efeito primário que desemprego traz. Mas no contexto das causas já apontadas, o que o desemprego causará será crise social em consequência de subconsumo, com efeitos marginais sobre preços inflacionados devido a custos e não a excesso de demanda. O desemprego não será eficaz para provocar, no curto prazo, a queda de salários dos que permanecem empregados e a possível queda de remuneração que os desempregados provocarão em serviços terceirizados não será suficiente para neutralizar as causas predominantes já apontadas. No entanto, em médio prazo o desemprego tirará o poder de negociação de ajustes salariais e provocará queda da renda de assalariados, diminuindo a demanda, recrudescendo a desigualdade social e sendo causa para crise social!

Há efeitos para os quais juros mais altos são causa eficaz. Juros altos compensam a inflação e protegem os rentistas, sendo uma forma equivalente de correção monetária. Os agentes financeiros, de um lado, garantem rentabilidade real para os recursos sob sua gestão e, do outro, governos endividados conseguem rolar e aumentar o valor da dívida pública. Juros altos também criam condições para um fluxo de recursos e de transferência de renda para países de moeda forte, já que estes países aproveitam o efeito de estabilidade, decorrente de suas moedas serem de referência para o comércio internacional, para trabalhar com juros internos muito baixos e criar condições favoráveis para seus investidores tirar proveito das altas taxas pagas pelos países que necessitam atrair reservas em moeda forte. Juros altos enquanto persistem são, pois, uma causa eficaz para “o aumento de reservas com prejuízo”, já que isto, o aumento temporário de reservas, é feito ao custo de perdas reais de recursos que fluem para os países dos investidores externos. São também, causa eficaz para a valorização irreal da moeda local, já que o excesso de oferta de moeda estrangeira leva ao consequente aumento irreal de valor da moeda nacional, que, por sua vez, prejudica os exportadores nacionais e estimula o gasto em moeda estrangeira com importações de bens de consumo e em viagens de turismo e compras no exterior, comprometendo, ao final, o balanço de pagamentos. Enfim, o resultado líquido final é o de perda de reservas governamentais e de gastos de divisas com bens não duráveis.

Se é assim que é, juros altos são certamente eficazes para governos gastões rolar e aumentar o valor da sua dívida pública, mas ao custo de um efeito bola-de-neve para o tamanho desta dívida. Enfim, juros altos são no final medida de governos reféns, para amansar rentistas e lhes garantir efetiva manutenção de ganhos, efetivando de fato correção monetária, que garante que a inflação não lhes corroerá a rentabilidade.

Se é assim que é, juros altos criam impedância que freia a economia causando desemprego, mas também queda na arrecadação colocando o governo na armadilha de aumento do déficit   público incontrolável, que o leva a defensiva e atabalhoadamente efetivar cortes no orçamento público que realimentarão o encolhimento da economia e recrudescimento de crise social.

O que é certo é que nenhuma medida de juros altos terá efeito benéfico e que a causa provocadora predominante de inflação a ser eliminada é o gasto público provocador de desequilíbrio fiscal.

O que é certo é que há um limite que juros não podem ultrapassar, que é aquele em que se inviabilizam investimentos em atividades e produção de bens e serviços agregadores de valor. Recursos financeiros não são um fim em si mesmos, não são resultados e nem agregam valor por si mesmos; só agregam valor quando são meios para efetuar as transações envolvidas em atividades para concretizar resultados.

O que é surpreendente é que o cliente praticamente monopolizador da tomada de recursos, o governo, não use esta sua condição para garantir valores de juros que não inviabilizem investimentos e crescimento da economia do país. Surpreende ainda mais considerando as oportunidades de investimento, em países como o Brasil, que abrem possibilidades amplas de atração de capitais em investimento direto, inclusive e principalmente os feitos em moeda forte, carreadores de aumento de reservas cambiais.

¹ (https://atairriosneto.com/2019/02/10/juros-altos-cartoes-de-credito-e-cheque-especial/).

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