O que é mais seguro para uma família pobre, guardar cuidadosamente suas poupanças “debaixo do colchão” ou usá-las prioritariamente para garantir sobrevivência, segurança e desenvolvimento de seus filhos? Seria diferente para uma família nação em crise socioeconômica? Se não, então há algo de errado com a família brasileira!
Um país ao se relacionar economicamente com outros países, em geral o faz com transações em moedas fortes e pode, descontados gastos com importações, controle de câmbio e pagamentos de dívidas, acumular saldo de reservas. Estas reservas são o resultado, principalmente, de (i) saldo positivo de exportações versus importações de produtos e serviços, (ii) investimentos estrangeiros diretos e (iii) investimentos estrangeiros em títulos do tesouro nacional e especulativos em mercado de ações. Os dois primeiros tipos são sólidos, resultados sob propriedade e controle dos governos de um país. O terceiro tipo é volátil, na verdade são dívidas dos governos, no caso de títulos públicos (ainda que em parte de médio e longo prazo) e resultado de especulação em bolsas, no caso de ações, sem controle sobre quando, com a mesma rapidez com que entraram, vão sair.
Um país não pode considerar a queima de reservas para amortizar ou pagar serviço de dívidas públicas decorrentes de déficits operacionais. As reservas têm um “poder de utilidade” operacional, crucial para a manutenção da saúde e desenvolvimento econômicos de um país; elas dão o poder de compra do que vem de fora e de financiar o que vai para fora. São elas que permitem a compra de materiais e bens para manter, melhorar e desenvolver atividades industriais, infraestrutura, agronegócio, saúde, educação e desenvolvimento tecnológico. São elas que permitem dar condições de competitividade comercial através do financiamento de bens exportados.
No entanto, um país deve considerar usar também para investimentos de seu interesse parte das reservas conseguidas com saldo positivo da balança de pagamentos, investimentos estrangeiros diretos e títulos da dívida pública de médio e longo prazo. No caso das relativas a títulos de curto prazo o normal e natural é que sejam consideradas “capital de giro”; no caso das resultantes de investimento em ações é melhor tratá-las como “reservas de garantia”, para evitar crises com a operação de bolsas de valores.
A necessidade de liquidez, para efetivar poder de utilidade nas transações com outros países, regular câmbio e defesa contra ataques especulativos, não justifica exageros de minimização de risco. O exagero dominante de “guardar debaixo do colchão”, ao aplicar parcela significativa de reservas em títulos do tesouro de países de moeda forte, com recebimento de juros baixíssimos, prejudica e muito os países que o fazem. Efetivamente, os recursos dessas reservas acabam sendo canalizados para os especuladores dos países de moeda forte que “correm os riscos” de os empregarem de volta nos países proprietários das reservas mal investidas, com substancial ganho de diferença de juros a seu favor; enfim o exagero permite uma situação de real sangria e transferência de recursos para os países de moeda forte. Uma real situação de bens nutridos sugando as energias vitais de anêmicos!
Parece claro que um país que disponha de reservas, tal que haja parcela de utilização não necessária no curto prazo, deva aplicar boa parte desta parcela em benefício de suas condições socioeconômicas, em investimentos que permitam agregação de valor através da melhoria e desenvolvimento de sua infraestrutura e de suas atividades industriais, do agronegócio, da saúde, da educação e desenvolvimento tecnológico.
Certamente há que se ter uma parcela para “manter condições a favor da segurança”, que, se investida, tem que o ser com minimização de risco e garantia de condições de liquidez. No entanto, segundo avaliações de estudo feito por técnicos do FMI, países como o Brasil têm operado com reservas em excesso relativamente ao razoável e seguro
(https://www.imf.org/external/np/pp/eng/2011/021411b.pdf).
Embora os resultados do estudo sejam de 2011, no nosso caso a situação certamente persiste e pode-se avaliar que com as atuais reservas da ordem de 400 bilhões de dólares, há margem de segurança para aplicação da ordem de 100 bilhões de dólares para investimentos em desenvolvimento, o que certamente poderia ser feito com segurança através de nossa “agência de desenvolvimento”, o BNDES!
Está mais do que na hora do país seguir o exemplo dos grandes fundos de investimento, por exemplo os de grandes universidades americanas na gestão de seus recursos disponíveis para investimentos. Eles têm um histórico de bons resultados de remuneração sem o exagero de garantir segurança contra riscos à custa de, para efeitos práticos, “guardar dinheiro debaixo do colchão”!