Confiança na Racionalidade da Ordem Natural das Coisas e Seres

“Não peça que os eventos ocorram

como você quer, mas faça com que sua

vontade seja a de que eles ocorram como

de fato ocorrem, e então você terá paz.”

Epíteto.

No mundo em que se vive a vida que se tem, existe uma ordem de funcionamento, uma ordem natural. Todos e tudo estão submetidos a esta ordem, não por opinião ou prescrição, mas por ser a ordem de como as coisas e seres são e funcionam na Natureza. A ordem que o conhecimento desvendado pela Ciência vai constatando e com a qual a Tecnologia vai permitindo lidar, de modo a propiciar condições melhoradas de sobrevivência, segurança e bem-estar.

“Como o que não se pode mudar, resolvido está”, então o melhor a fazer é se ter o pragmatismo de se lidar com esta ordem natural como o que é e o que deve ser, e, com confiança, buscar desvendar sua racionalidade; com confiança como “condição essencial de vontade para se  lidar com aquilo que a razão ainda não consegue explicar”. Esta é uma fé estendida, a fé racional, a fé de acreditar na possibilidade de usar o conhecimento e se poder criar condições de qualidade e dignidade de vida, qualquer que seja a condição de ser a que o indivíduo esteja submetido nesta ordem natural.

          A fé racional é pela razão, pela confiança de que há uma racionalidade na ordem natural das coisas e seres, que a tornaria sábia e justa. Ela é diferente e pode conviver com a fé religiosa, como “condição essencial para se acreditar naquilo que a razão não consegue explicar”. Fé religiosa que também é natural, já que é consequência da preocupação com a origem e continuidade da vida humana, que a entidade-causadora colocou na natureza intrínseca do ente-efeito-criatura-humana.

A fé racional não significa que o indivíduo vá se acomodar e “deixar a vida levá-lo”. Com as suas condições de ser, em cada momento há a possibilidade de usar seus sentidos, instintos, conhecimentos e vontade de decisão para se conseguir uma vida ativa, explorando-se as possibilidades existentes para sobrevivência, segurança e bem-estar. Ao indivíduo humano é dada a capacidade de ir desvendando como as coisas funcionam, usando sua capacidade de desenvolver conhecimento; e com o conhecimento vem a capacidade de desenvolver instrumentos e ferramentas para ações de vida. E assim vai lidando cada vez melhor com a ordem natural e com a vida.

Por certo, não dá para entender e controlar tudo em cada momento no desenrolar da vida. Não dá para evitar os momentos de crise que todos acabam por ter que enfrentar, quer por falta de entendimento, quer por falta de capacidade de ação. No entanto, ter fé racional na sabedoria e justiça da Natureza ajuda a evitar que se aceite passivamente e com atitude de coitadinho o sentimento de sofrimento face às adversidades ou limitações; ajuda a se ter a atitude de procurar remédios ou superações para inevitáveis dores e tristezas. A fé racional pode também evitar a atitude ou vontade de sofrer quando as limitações de poder de entendimento e de poder de ação tiram possibilidade de livre arbítrio do indivíduo de agir preventivamente.

Na coreografia da vida, o indivíduo se submete ao arranjo e ritmo do mundo em que lhe é dado viver. Presos nas cadeias de causa-efeito, os indivíduos são criaturas sem condição de entender e desvendar a causa que os causou. As condições de existência para o indivíduo, como entidade-criatura-efeito, são as desencadeadas pela causa que o causou e a sua sina é a de, na melhor das hipóteses, ir entendendo como as coisas funcionam e de ir aprendendo a se adaptar e a lidar com efeitos, para conseguir condições de sobrevivência, segurança e bem-estar, sempre conforme impõe a coreografia da ordem natural das coisas e seres.

A fé racional é a fé para lidar com as condições de ser que se tem no mundo material em que se vive, do jeito que ele é, do jeito que as coisas nele funcionam. Ela é necessária para se acreditar na possibilidade de se agir para criar condições de qualidade e dignidade de vida, aceitando e convivendo, porém proativamente, com a realidade de ser que não se pode mudar e os inevitáveis momentos de crise ao navegar os mares da vida.

Deixe um comentário