A Vida que se Tem para Viver

Vive-se como prisioneiro da cadeia espaço tempo. Esta é a inescapável sina do indivíduo criatura humana. E sendo assim, o natural é viver a vida que está ao seu alcance viver. Nos limites do mundo real em que está confinado, é melhor o indivíduo tratar de buscar maestria para conseguir fazê-lo com bons resultados.

            Nos limites do mundo material do viver, os indivíduos podem perceber, entender e agir usando seus sentidos, mente, corpo e os recursos propiciados pelo conhecimento. Com sua capacidade de desenvolver instrumentos tecnológicos, os indivíduos ampliam seus limites, no entanto, sempre no mundo material do seu confinamento. Ao tentar entender o porquê e a origem dos processos de seu mundo, fica sempre limitado, nunca chegando às causas originais; quanto mais percebe e entende das coisas e seres, mais consciente fica da infinitude de sua ignorância.

            A possibilidade de perceber e entender suas origens transcende o indivíduo. A sua mente lógica e capacidade de abstração o levam ao entendimento, por relação de causa e efeito, da necessidade da existência de Entidade-Causadora, Deus. No entanto, não lhe permitem transcender e entender suas razões de ser e, muito menos, entender e qualificar a Entidade-Causadora e seus propósitos.

            Os indivíduos costumam tratar como transcendental o que ainda não entendem e não sabem como explicar no mundo real.  No entanto, quanto mais sabem de seu mundo real, mais podem lidar com sua natureza e, consequentemente, com a sua sobrevivência, segurança e bem-estar. Embora seja natural e saudável que se tenha crença em uma vida além da vida material, isto não livra o indivíduo de ter que viver a realidade do seu mundo real. Não o livra da realidade do aqui e agora e pode atrapalhar o viver da vida que deve e pode ser vivida. Pode ser armadilha que leve a tratar como místico e indevassável o que ainda não se entende e não se sabe explicar no mundo real, atrapalhando o desenvolvimento do conhecimento e de novas tecnologias.

Na inquestionável evolução humana de percepção e entendimento das coisas, constata-se que ao longo do tempo tem sido natural o aparecimento de líderes carismáticos que deixam herança de crenças religiosas que tentam congelar o nível de evolução cognitiva, prescrevendo submissões a um mundo e regras transcendentais. Constata-se, também, que tais crenças são manipuladas por líderes políticos e militares, para exercer controle social, justificar guerras santas contra infiéis e conquistar poder e riquezas, assim como a posse e defesa de territórios. A História tem mostrado o custo em sangue e sofrimento humanos necessários para se realizar núcleos de civilização. No entanto, ainda hoje, neste século XXI, esses núcleos se encontram ameaçados por ações e guerras de justificativa religiosa, que encobrem interesses econômicos e de poder. Na verdade, é pior que isto, a ameaça é a de que fundamentalismos religiosos ponham fogo no mundo, inviabilizando a vida civilizada. A ameaça dos “anticristos” continua presente! Este é o desafio de nossos e, talvez, de todos os tempos: o desafio de conter e sanar este câncer  que impede de se viver a vida que se pode viver no mundo que é o real, que é o que se tem para viver.

A ordem natural  do mundo que se tem para viver permite avançar para a realização de condições evoluídas de sobrevivência, segurança e bem-estar. Há conhecimentos e tecnologias, se não para efetivar um paraíso, pelo menos para efetivar um  “purgatório de luxo”, onde reinem paz, harmonia e prosperidade!

As situações de desarranjo atuais e a iminência de desastre socioeconômico e ambiental já  propiciaram vivência, percepção e entendimento suficientes para a necessidade de atitudes, comportamentos e ações que efetivem abordagem sistêmica e sinérgica para se lidar com problemas de vida na espaçonave Terra. Não há como se fazer viagens solitárias, vive-se embarcado como parte da humanidade, nos compartimentos da família, comunidade e nacionalidade. Para cuidar bem de sua vida, cada indivíduo tem que ter um senso de pertencimento à humanidade, englobando sucessivamente os sensos de pertencimento a nacionalidade, comunidade e família. Só assim haverá de cuidar bem da vida que tem para viver; cuidar para ser o infinitésimo na integração de condições para um “purgatório de luxo” no planeta Terra!

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