Sim, somos todos vítimas porque fazemos o que sentimos e percebemos como de nosso interesse para defender condições de sobrevivência e bem-estar. A nossa natureza vincula a assim fazer. Somos todos vítimas do “algoritmo do viver cognitivo”: “crenças de como as coisas funcionam conforme percepções e entendimentos; atitudes e comportamentos conforme crenças; escolhas e ações conforme atitudes, comportamentos e oportunidades; instâncias e experiências de vida conforme escolhas e ações”. Mas somos também, e fortemente, seres vítimas de instintos de autopreservação, como parte da Natureza onde a “lei e ordem” é a de cadeias de presa-predador, em que, na situação primitiva animal, nos inserimos como predadores de praticamente todos os seres, aí incluídos os da nossa espécie.
De maneira consistente com nossa natureza, fazemos o que fazemos porque estamos certos de estarmos certos! Somos sempre vítimas de convicções e instintos do que é melhor fazer para cuidar da nossa vida. E assim vamos todos, em menor ou maior grau, sendo vítimas de tentativas e erros atabalhoados, no tentar garantir nossa sobrevivência, segurança e bem-estar.
Cada um é o resultado de seus processos biológicos, psicológicos e de seus processos de criação, educação, assim como de condições econômicas, políticas, sociais e culturais vividas. E assim sendo, da mesma forma que não se pode atribuir todos os méritos aos que sabem e lidam melhor com as situações de vida, não se pode deixar de considerar vítimas de seus processos de vida os que ignorantemente não o sabem.
Os que prejudicam a vida humana e ambiental têm que ser contidos, penalizados e corrigidos. Os que percebem os desarranjos não se podem furtar a denunciar e querer estancar os danos ruinosos à vida. Mas como fazê-lo com compaixão, já que não há “bandidos ou mocinhos”, pois todos são vítimas de suas condições biológicas e cognitivas? Como fazê-lo sem provocar reações polarizadas destrutivas? Como fazê-lo construtivamente?
Se um estágio de evolução cognitiva é a pessoa estar segundo um conjunto de percepções e entendimentos, que vinculam, condicionam suas escolhas, atitudes, comportamentos e ações de vida. Se o que todos queremos é sobreviver com saúde, segurança e bem-estar. Então o desafio é o de se compartilhar percepções e entendimentos para a busca e convencimento de como fazê-lo nas condições científico tecnológicas existentes. Não é uma questão de vencer ou ser vencido, mas de convencer ou ser convencido. Será que face às condições atuais (ambientais e humanas) não dá para nos convencer que é de nosso interesse: abordagem ecológica e trabalho em rede; crença que o espírito humano precisa se libertar da ganância, do dogma e do divisionismo; pensamento não linear e preocupação pelo planeta e seus habitantes; e abordagem sistêmica para se lidar com problemas? Será que os intelectuais, cientistas e ambientalistas não teriam e não poderiam ser convincentes de forma generosa e empática para conquistar mentes e corações dos que têm poder e andam sendo vítimas de sua ignorância e provocando tantas guerras, desigualdades socioeconômicas e crises ambientais?
E nesse desafio é sempre bom enfatizar, para os que ainda são vítimas dos excessos de justa indignação, que só reclamar, condenar e esbravejar não resolve; é preciso usar e buscar de maneira solidária avanços científico tecnológicos para desenvolver meios amigáveis com a “lei e ordem” da Natureza, que nos livrem de ações predadoras, para os objetivos humanos de alimentação, moradia, locomoção, comunicação, prazeres e emoções!!!