Previdência ou Providência da Crise Socioeconômica?

Reforma da Previdência? Cuidado! O “tiro pode sair pela culatra”, de modo que todos saiam perdendo, tanto o Mercado como a população aposentada. A capacidade de influência do Mercado pode levar a uma situação destemperada que não será boa para ninguém, no longo prazo, se houver exageros ou abusos no condicionamento de oportunidades econômicas de rentabilidade que venham a ser socialmente danosas. A reforma da Previdência não pode levar a uma população aposentada predominantemente de baixa renda, portanto com consequente baixa capacidade de consumo e vulnerável a crise social de sobrevivência, situação que condenaria o país a crise econômica crônica de empobrecimento, já que, face a situação demográfica de acentuado envelhecimento da população, no longo prazo predominará uma população de velhos aposentados pobres. 

Há fatos a considerar e cuidados a serem tomados, para evitar uma Previdência que venha a se tornar providência de resultados sociais indesejáveis.

Primeiro, há que considerar que fração dominante da população assalariada ganha mal e que, mesmo quando ainda no mercado de trabalho, tem baixo poder de consumo, com precária condição de manter demanda para movimentar a Economia. Para piorar, a situação insatisfatória dos serviços públicos penaliza esta fração da população a gastar parte de seus salários com saúde, educação e transporte, principalmente. Esta parcela dominante da massa assalariada está envelhecendo, com taxa de reposição fortemente negativa. Ela será, portanto, também, parcela dominante da velharada aposentada pobre; se seu poder aquisitivo piorar após a aposentadoria é inquestionavelmente certo a sua também contribuição para situação de crise econômica crônica. Há que se manter atualização monetária da aposentadoria desta parcela de menor poder aquisitivo e não comprometer sua já baixa renda com contribuições para Previdência Privada.

Segundo, que a parcela jovem da população é predominantemente pobre e, com as oportunidades de educação pública vigentes, mal preparada para atuar no intensivamente tecnológico mercado de trabalho; a prevalecer tal situação, a reposição da parcela dominante da força de trabalho, além de negativa, manterá a condição de baixos salários e baixo poder de consumo. Nesta faixa da população a situação é agravada por taxas de natalidade abaixo das necessárias para reposição; e o pior é que as taxas maiores ocorrem entre os mais pobres, agravando e perpetuando a situação. Os mais bem colocados na escala social têm preferido filhos-pets a filhos-humanos! Há que haver esforço prioritário para recuperar condições educacionais dessa parcela predominante e pobre para sua capacitação para o mercado de trabalho; há que haver também estímulos fiscais para os mais bem colocados na escala social voltarem a ter filhos. Uma medida que deve também ser seriamente considerada é a de atrair jovens imigrantes bens qualificados das regiões do mundo em conflito, como é o caso do Oriente Médio e de regiões da América Latina. 

Terceiro, que há uma cultura no empresariado brasileiro de considerar inaproveitáveis os desempregados já na faixa de cinquenta a sessenta anos. Assim, o aumento de idade mínima terá que achar forma de conviver com estes desempregados sem condição de continuar contribuindo para a previdência até a idade exigida para aposentadoria. Para desempregados nesta faixa de idade, além de um seguro desemprego, há que se considerar um seguro contribuição previdenciária.

Quarto, há que se considerar a baixa credibilidade da solução de Previdência Privada. O histórico brasileiro de ação praticamente impune de especuladores corruptores vampirizando e depredando Fundos de Pensão de trabalhadores não permite encarar com bons olhos esta possibilidade se ela não for acompanhada de regulação que garanta valores e rentabilidade que não sejam corroídos por inflação e crises especulativas de mercado fora do controle dos contribuintes. 

 Quinto, já se viveu o suficiente para saber que não dá para tratar os desiguais igualmente. Os mais bem preparados, competentes e em posições de maior complexidade e responsabilidade do serviço público têm que ter remuneração equivalente aos seus “iguais” do setor privado. Achatamento de salários do setor público levará inevitavelmente à fuga dos melhores e deterioração dos serviços públicos já bastante precários. As pessoas decidem e agem segundo o que consideram ser de seu interesse; é sempre do interesse das pessoas que seus resultados de vida, em termos de qualidade de sobrevivência, segurança e bem-estar, proporcionados pelos ganhos salariais, sejam proporcionais aos esforços, tempo e custos para se preparem, assim como à complexidade e carga de responsabilidade da sua contribuição de trabalho. E isto vale tanto salários durante sua vida ativa no trabalho como para valores de aposentadorias durante sua vida de aposentados.

É preciso eliminar privilégios, tanto no Mercado como no Setor Público. Neste cortando descabidas mordomias de adicionais que não se justificam. No Mercado, eliminando subsídios, que via de regra servem mesmo é para compensar e perenizar falta de competitividade. No entanto, da mesma forma que não se pode sufocar o Mercado com excesso de tributação e regulamentações, não se pode também efetivar achatamentos salariais e deterioração de aposentadorias que inviabilizem a manutenção de bons quadros de trabalho no Setor Público, necessários para a garantia da qualidade dos serviços públicos.

9 comentários em “Previdência ou Providência da Crise Socioeconômica?

    1. Desalentadora a realidade brasileira! Não consigo acreditar na reforma da previdência e os resultados esperados, concordo com suas palavras, continuamos confundindo os fins com os meios. A reforma da previdência é o fim, não há uma real preocupação com os meios como ações que possam trazer mais dignidade à população. Fico me perguntando como poderia contribuir para mudar essa realidade além de ser uma pessoa digna, e que tenta passar rígidos valores para a filha…..isso já não é suficiente, já não adianta apenas fazer a nossa parte, a minha parte!
      Mas de qualquer forma é preciso ter uma atitude positiva com a vida!

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  1. Muito bem vindo seu artigo, pois trata com amplitude os vários pontos desta questão tão complexa, favorecendo nossa compreensão e análise desta proposta. Grata!

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  2. Atari, bom final de semana!!!
    Um pequeno comentário sobre suas considerações:
    O setor privado e público deve ser igual, altos salários para ambos mais qualificados, mas tb. as mesmas condições de aposentadoria e preferencialmente com maiores alíquotas,ou seja quem ganha mais paga mais.
    Muito boas suas considerações.
    Abç

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  3. Excelente análise de um difícil problema. Fica evidente que uma solução adequada para todos os segmentos da população não será encontrada tão facilmente. Estamos diante do dilema de fazer um omelete sem quebrar os ovos. Não haverá justiça para todos, sempre haverá prejudicados que entrarão no rol das vítimas da incúria dos dirigentes eleitos ao longo da história política do País.

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  4. Caro Prof. Atair, ótimas considerações. De fato, o hiato entre a idade de aposentadoria e a idade na qual o mercado começa a se desinteressar pelo profissional aqui no Brasil vai aumentar. Eu entendo que a causa raiz de todo o exposto, e de outros problemas brasileiros, é a estagnação econômica. Ainda estamos estacionados nas discussões ideológicas do passado, enquanto outras nações têm foco no crescimento e na geração de renda e qualidade de vida para seu povo.

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