Nossa população é ainda capenga de capacitação educacional. Em continuando assim, permaneceremos em subdesenvolvimento, com crise socioeconômica crônica que nos torna “vítimas perfeitas” para abuso econômico por países de “moeda forte”, com consequente aprisionamento no subdesenvolvimento e recrudescimento da crise socioeconômica, em círculo vicioso que se reforça.
Como não podia deixar de ser, nossa presente condição é o efeito acumulado de nosso processo histórico. Tivemos uma colonização predatória; por um lado, conduzida por elites privilegiadas, beneficiadas com concessões que tratavam como bens privados e que, via de regra, exploravam com o trabalho de servos e escravos; por outro, por desbravadores exploradores em busca de metais e pedras preciosas. O objetivo de enriquecimento rápido, para voltar e desfrutar novo status na metrópole, justificava todos os meios. Mesmo quando houve fixação de conquistadores e colonizadores no país, as atividades de produção foram à base de trabalho escravo. E quando se aboliu a escravidão, deixaram-se os antigos escravos à própria sorte, amontoados em favelas, e se recorreu à imigração que, com a honrosa exceção daqueles que fugiam de guerras e perseguições, também teve sua boa dose de predação, com a mentalidade de “enriquecimento da noite para o dia”.
Em decorrência deste processo histórico, somos ainda contaminados por uma cultura patrimonialista, em que boa parte de nossas elites políticas e empresariais se julga no direito de tirar proveito da coisa pública e de se garantir privilégios, sem compromisso com soluções coletivas que garantam boas condições de sobrevivência, segurança e bem-estar para os brasileiros do povão.
Não há dúvida que um país, só tem chance de dar certo se, através de suas organizações públicas e privadas, efetivar condições de sobrevivência, segurança e bem-estar para sua população e, também, efetivar condição de ter produtos e serviços para exportar que garantam a cobertura de importações e saldos positivos para constituição de reservas que, por sua vez, garantam proteção e poder econômico. Ora, mas as organizações são tanto mais “competitivas” quanto mais conteúdo tecnológico e singularidade tenham seus produtos e serviços, ou seja, quanto mais sofisticado e diferenciado seja seu escopo técnico, que por sua vez tem como condição necessária o preparo, competência, atitude e comportamento de suas pessoas, ou seja da população, no caso da mega organização que é um país.
Portanto, os países, para sobreviverem com boa situação socioeconômica, precisam satisfazer a condição necessária de ter pessoas com capacitação educacional, motivadas, com mentalidade empreendedora e inovadora. Esta condição só se efetiva se as pessoas tiverem acesso a todos os níveis de educação, com priorização para os “alicerces”, que são os ensinos básico, fundamental e médio. E há que ser uma educação que trabalhe plenamente as capacidades cognitivas e que cultive uma cultura de reconhecimento e valorização da busca de novos conhecimentos, tecnologias e de organização de novos negócios.
Não é o que tem acontecido em países subdesenvolvidos como o nosso. Neles as etapas que vão do ensino básico ao médio têm alternativa de boa qualidade oferecida por escolas privadas, para bem servir e bem preparar os que têm poder aquisitivo, facilitando-lhes o ingresso nas ainda boas universidades públicas. Enquanto isso o poder público não cuida como devia das escolas públicas destas etapas, condenando a maioria mais pobre ao despreparo educacional e tirando-lhe a chance de disputar vagas nas boas universidades públicas, não lhe restando alternativa a não ser a de recorrer à possibilidade de ingresso facilitado pelas faculdades particulares de baixa qualidade. Para completar o absurdo da situação, o poder público banca a pós-graduação de forma exagerada, a tal ponto de exagero que o resultado tem sido o descuido dos professores com a graduação nas universidades públicas.
Não há “Deus Brasileiro” que resolva, quando o país não cuida bem do processo educacional de sua população. Países que não satisfazem esta condição são inexoravelmente condenados ao subdesenvolvimento e a crise socioeconômica crônica. São países que se tornam vítimas perfeitas para exploração abusiva pelos países desenvolvidos de “moeda forte, que há já algum tempo vêm tirando vantagem desta situação: primeiro, mantendo seus juros praticamente negativos, o que só favorece seus investimentos produtivos internos e especulativos externos; segundo, aumentando emissões de suas moedas impunemente, já que boa parte se esparrama pelo mundo afora, para ser gasta no comercio internacional ou para ser bem guardadinha e imobilizada nas reservas dos “países subdesenvolvidos”.
Como os países subdesenvolvidos em geral produzem com baixa produtividade e baixo valor agregado (principalmente commodities) e são tipicamente importadores, eles precisam ter e manter reservas para cobrir o que é comprado fora. Esta condição os leva a agir para recompor o estoque de moeda forte, à custa da desvalorização cambial, para estimular o aumento da exportação de commodities (em geral precificadas em moeda forte no mercado internacional) e o aumento da competitividade de produtos nacionais (precificados no mercado interno). O efeito daninho é que os produtos que eles precisam importar acabam por sair mais caros em valores das suas moedas fracas, contribuindo para processo inflacionário. Mas não é possível recompor suas reservas apenas com suas poucas exportações; então não há alternativa senão facilitar investimentos diretos (muitas vezes com a venda de ativos nacionais) e ou aumentar juros básicos da economia para bem além inflação, já que investidores detentores de moedas fortes só haverão de ter interesse em investir nos países de moedas fracas se houver lucro razoável e diferença positiva de juros relativamente aos praticados em seus próprios países. Em consequência, se efetiva um processo de “vampirização econômica”, já que o efeito do “lucro rentista” é o de uma canalização de recursos dos países devedores para os países investidores; uma nova forma de colonização econômica, com o empobrecimento e aumento da dívida pública dos países de moedas fracas.
E se não fosse suficiente esta situação de infortúnio para os países subdesenvolvidos, há as “agências de risco”, sob controle dos países de moeda forte que, em verdadeira situação de tratar “as vítimas como culpadas”, classificam esses países como de alto risco, não lhes dando alternativa a não ser aumentar mais ainda seus juros e desvalorizações de suas moedas, para continuar a financiar déficits e importações, o que causa mais inflação e crises de recessão, com aprisionamento ao subdesenvolvimento e crises sociais.
A solução para tal situação de exploração econômica certamente não é a imposta através dos FMIs da vida, que impõem soluções de “austeridade” e elevação de juros que só pioram a situação!
As causas e consequências do subdesenvolvimento estão identificadas. A solução também. O rompimento desse círculo vicioso de novo colonialismo está na capacitação educacional da população. Para se construir a solução do problema há que perceber, entender que:
(i) Ou se oferece à população, com igualdade de oportunidades, educação de boa qualidade, do nível básico até o de graduação, ou se colocam em risco a segurança e soberania nacionais;
(ii) Sem questionamento de que a inciativa privada se envolva com educação, há que haver avaliação, fiscalização e regulamentação que tire do mercado as organizações de baixa qualidade;
(iii) Pós-graduação é para ser oferecida apenas para uma minoria vocacionada para ensino e pesquisa e não cabe ao Estado garantir gratuidade; o natural, como acontece nos países desenvolvidos, é que ela seja via de regra paga, recorrendo-se a bolsas de pesquisadores assistentes custeadas por verbas de pesquisa para atrair e reter alunos de excepcional mérito.
Portanto, em síntese: ou independência econômica conquistada por população com conhecimento e capacidade de ação produtiva com competitividade, para exportar e garantir a constituição de reservas que garantam proteção e poder econômico, ou “vampirização” por países de moedas fortes e consequente subdesenvolvimento e crise social crônica! Esta é a questão que nos deve unir a todos, para ação sinérgica de sociedade civil organizada.
Tudo certo. Ninguém poderá se atrever a contrapor algo a estas considerações. No entanto, o momento do país está pior do que há algum pouco tempo atrás. Eu passei as últimas poucas décadas, na redemocratização, com expectativas de melhora. Agora estamos em retrocesso. As perspectivas são de piora, a julgar pelas amostras dadas até estes 100 primeiros dias. Esperemos, e agora precisa até de ´fé´, que o professorado e as universidades consigam resistir, convencer o congresso a ajudar na resistência, sob pena da derrocada ser altamente destrutiva. Abraços, compadre. Boa sorte para todos nós. É claro, educar sim, mas há que cuidar do como e do conteúdo que será permitido ou censurado; veja só! tempos escuros…
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Concordo com o que você escreveu.
Também acho que a pós graduação deva ser oferecida para uma minoria vocacionada.
A Alemanha é um bom caso.
No meu ponto de vista, acho muito difícil provocar a mudança por meio da estrutura educacional formal.
Vejo novas organizações privadas ocupando este gap mercado – educação.
Cursos de nanodegree, EADs com períodos de imersão, organizações especializadas que vendem capacitações, etc
Talvez, este possa ser um dos possíveis caminhos.
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