Ensino Necessariamente Sem Fins Lucrativos: Estratégia para Soberania e Saúde Socioeconômica

Não se pode confundir os meios com os fins; o objetivo de organizações de ensino é educar cidadãos, não é o de ganhar dinheiro. Serviços de ensino são estratégicos para a soberania e saúde socioeconômica de um país; e assim sendo não se pode tratá-los com o fim de lucro.

Em tempo e explicando melhor. Ensino sem fins lucrativos não quer dizer que não possa haver organizações privadas atuando em educação e que por ser sem fins lucrativos não possam ter saldo operacional positivo, ou lucro, em suas atividades; só quer dizer que o lucro não pode ser o fim, já que lucro não pode ser o objetivo em atividades de ensino, mas apenas o meio necessário para a  necessidade de saldos positivos que permitam sobrevivência com investimentos em melhorias e crescimento. A vocação do educador é e deve ser a  de acessar e transmitir conhecimentos para a utilidade de dotar pessoas de condições de sobrevivência e  desenvolvimento de seu potencial cognitivo e psicológico, assim como de prepará-las para ação cidadã colaborativa e construtiva nas condições de vida da Sociedade.

Da mesma forma, não se confundindo os meios com os fins, no caso de empresas produtoras de bens e serviços atuando no mercado, a eficácia competitiva é o meio necessário para o objetivo de lucros compensadores. A justa e natural vocação do empresário é a de ganhar dinheiro, competindo por explorar oportunidades de desenvolver e vender soluções para necessidades existentes ou induzidas na Sociedade.

É fato que o projeto e condições de operação de um processo organizacional devem ser sempre estabelecidos a partir da eficácia nos resultados e da clientela a ser atendida, o que determina as características das suas atividades, recursos humanos, técnicos e financeiros, assim como dos valores que condicionam atitudes e comportamentos. Uma organização de ensino deve, pois, ser  projetada e operada pelo resultado de ensino de qualidade, como sua eficácia de prioridade competitiva, com lucro apenas necessário para sobreviver com condições de melhorias e  crescimento. Esta necessária forma de projetar e operar os negócios de ensino é incompatível com a oposta  e necessária ação empresarial, de privilegiar a lucratividade para maximizar remuneração de proprietários, com eficácia  nos resultados apenas para manter sobrevivência competitiva.

Um país tem que garantir condições para uma educação que trabalhe plenamente as capacidades cognitivas e que cultive uma cultura de reconhecimento e valorização da busca de novos conhecimentos, com o propósito de preparar cidadãos engajados e preparados para a melhoria de condições de sobrevivência, segurança e bem-estar nas comunidades em que vivem. Não se pode entregar a busca desse resultado a empresários com modelos mentais que privilegiam resultados de curto prazo, que em consequência agem e  decidem para minimizar risco de prejuízos financeiros que comprometam ganhos de capital investido ao explorarem oportunidades de ganhar dinheiro com o atendimento de necessidades, principalmente materiais, das pessoas. A mercadoria produzida em atividades de ensino tem que atender necessidades de ser das pessoas: de se ser social, afetivo e útil; de se ser com liberação de potencial, de desenvolvimento, criatividade e autoexpressão; mercadoria que só educadores com sua vocação e valores podem produzir.

No nosso país, a invasão do  mercado educacional por organizações voltadas para o lucro, inclusive e infelizmente também organizações estrangeiras, tem levado a resultados que deixam muito a desejar. Face à situação precária das escolas públicas até o nível de ensino médio e da baixa remuneração de seus professores, a natural ação empresarial por maximização de lucros de escolas particulares com fins lucrativos tem levado à exploração desta situação como oportunidade para manter a condição de  baixas remunerações de professores e  uma qualidade de ensino  apenas relativamente melhor, porém insuficiente para garantir uma boa qualidade comparativamente a dos países desenvolvidos. Esta situação tem fornecido, aos que têm poder aquisitivo, um ensino utilitarista,  de boa qualidade viesada “para passar nas provas” dos vestibulares das ainda boas universidades públicas e não uma verdadeira educação para formar cidadãos preparados para lidar com a vida coletiva no país. No caso das faculdades particulares, com honrosas exceções, principalmente as das ligadas a organizações confessionais, explora-se a oportunidade criada pela ansiedade de ascensão social e status dos que não tiveram chance de ingresso em faculdades públicas, para vender um ensino consideravelmente pior relativamente ao das faculdades públicas. O que se tem observado é também, em todos os níveis das escolas atuando com fins lucrativos, uma carência de professores maduros e experientes, com as necessárias vivências de vida e de atuação profissional, de modo a terem condições de exercer nos processos educacionais o  tão necessário papel de senioridade e de exemplos de vida, já que a busca de aumento de lucros tem feito prevalecer uma política de frequente troca de professores mais experientes por professores novatos, de forma a diminuir custos. Embora a entrada de professores jovens seja necessária para “trazer sangue novo” e quebrar velhas práticas e conservadorismos, o problema é que isto tem sido feito quebrando balanceamento, praticamente eliminando a participação  de seniores.

“Países, para sobreviverem com boa situação socioeconômica, precisam satisfazer a condição necessária de ter pessoas com capacitação educacional, motivadas, com mentalidade empreendedora e inovadora.  Esta condição só se efetiva se as pessoas tiverem acesso a todos os níveis de educação, com priorização para os “alicerces”, que são os ensinos fundamental, básico e médio. E há que ser uma educação que trabalhe plenamente as capacidades cognitivas e que cultive uma cultura de reconhecimento e valorização da busca de novos conhecimentos, tecnologias e de organização de novos negócios.”

É, pois, de verdadeiro interesse dos empresários que fiquem “no seu quadrado”, pois sua chance de fazer bons e lucrativos negócios depende totalmente de pessoas bem preparadas, o que só acontecerá se “o quadrado” da educação estiver nas mãos certas, as dos educadores!

Um comentário em “Ensino Necessariamente Sem Fins Lucrativos: Estratégia para Soberania e Saúde Socioeconômica

  1. Excelente artigo.
    Mais claro que isso é impossível. Retrata com absoluta propriedade as mazelas da educação escolar no Brasil e a ação dos oportunistas que vêem nessa situação uma oportunidade de ganhar muito dinheiro.

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