As condições para sustentabilidade da civilização humana estão a ponto de desandar. O longo e desafiador processo de evolução humana está em uma etapa com elevado risco de auto implosão. Há um conjunto de crises que demandam atenção:
(i) Excesso de poder do capital financeiro e abusos especulativos e rentistas, em prejuízo dos que adicionam valor e produzem, assim como drenagem de recursos dos países não desenvolvidos para os desenvolvidos;
(ii) Crescente e já predominante situação de desigualdade socioeconômica, acompanhada de precariedade de serviços públicos, como saúde, educação e segurança, essenciais para condições de sobrevivência humanizada e chance de ascensão social dos mais pobres.
(iii) Consumo de drogas e crescimento descontrolado do crime organizado, acompanhado de violência e perda de vidas de jovens, nas comunidades menos favorecidas socioeconomicamente; assim como destroçamento de famílias e da saúde mental e comportamental de jovens, de um modo geral;
(iv) Fluxos migratórios descontrolados, de países em situação de miséria ou de descontrole político, para os países desenvolvidos;
(v) Individualismo, consumismo e imediatismo dos mais favorecidos socioeconomicamente, com prejuízo da constituição e estabilidade de famílias e proliferação de pets no lugar de filhos;
(vi) Crise das democracias representativas em atender às necessidades das maiorias de baixa renda, com surgimento e proliferação de ascensão ao poder de lideranças populistas;
(vii) Ativismo exacerbado e hostilizante de grupos na sociedade, por razão de gênero, opção sexual, cor ou posição política, com surgimento de polarizações, radicalizações e quebra da possibilidade de convívio harmônico.
Tudo por vontade e ação do bicho humano; certamente em função de seu estado atual de “cretinice ignorante”. Tudo por sua falta de percepção e entendimento de interesses verdadeiros.
Saberes existentes indicam que a evolução humana se daria segundo um padrão dinâmico (W. Graves¹, Beck e Cowan²). Em um estágio de evolução as pessoas estariam segundo percepções e entendimentos, que vinculariam, condicionariam suas escolhas, atitudes, comportamentos e ações de vida. Os estágios se agrupariam em dois níveis: de subsistência e de ser. No nível de subsistência as pessoas consideram ter atingido um ponto final de percepções, entendimentos e comportamentos e oferecem muita resistência à mudança, hostilizando outros estágios e tentando impor sua supremacia. Avaliações recentes (2013) indicam estágios do nível de subsistência ainda prevalecendo; uma parte predominante da população se divide quase que igualmente entre os estágios azul e laranja, com uma pequena parcela no estágio verde.
(1) Azul: A vida tem significado, direção e propósito com resultados segundo ordem superior (religiosa ou ateísta); lealdade autoritária a verdade determinada por grupamento social; autossacrifício pela causa maior; absolutismo e invariabilidades de princípios, do certo e do errado; viver corretamente produz estabilidade e garante recompensas futuras; a lei, regulamentos e disciplina constroem o caráter e fibra moral; hierarquias sociais rígidas; um único modo de pensar e um único caminho certo; lei e ordem, patriotismo com impulsividade controlada por meio da culpa. Seu poder de atuação seria de ordem proporcional a seu nível de ocorrência.
(2) Laranja: Mentalidade individualista; autonomia e independência; ação em interesse próprio, jogando para vencer; crença científica, na objetividade e racionalidade, em leis naturais que devem ser conhecidas e controladas; progresso pelo conhecimento da natureza e manipulação de recursos naturais; crença na realização por ganhos materiais, com motivação por dinheiro, ao invés de lealdade, espírito de equipe ou condições de empregos com estabilidade vitalícia; na prosperidade através de planejamento, tecnologia e competitividade; leis científicas comandam política, eventos humanos e fenômenos naturais. Seu poder de atuação seria significativo, com ordem superior ao seu nível de ocorrência. Este estágio seria dominante no mundo empresarial.
(3) Verde: Mentalidade comunitária, com preocupação em criar vínculos, sensível a abordagem ecológica e trabalho em rede; crença que o espírito humano precisa se libertar da ganância, do dogma e do divisionismo; sentimentos e solidariedade suplantam a fria racionalidade; reaviva-se a espiritualidade, busca-se harmonia e valorização do crescimento humano; ênfase no diálogo e relacionamentos; atitude igualitária, antihierárquica e de negação do autoritarismo; crença em decisões por negociação e consenso; em valores pluralísticos, multiculturalismo e relativismo pluralista; atitude subjetivista, com pensamento não linear e preocupação pelo planeta e seus habitantes; usa-se abordagem sistêmica para se lidar com problemas. Representaria pequena parcela da população com grande poder de atuação e visibilidade pública, pela utilização de recursos modernos de mobilização e ação, principalmente redes sociais.
No nível ainda incipiente, o de ser, o foco das pessoas seria em competência, funcionalidade e de se viver no contexto de sistemas abertos e flexíveis; a visão seria a de um mundo rico em informação, multidimensional, interativo e complexo; compreende-se a importância de transformação, considerando-se a evolução da consciência humana como processo natural; que a melhor forma de viver é a de fazê-lo segundo a realidade da ordem natural das coisas. O grande desafio, para o desenvolvimento para os estágios do nível de ser, seria vencer a energia e resistência do estágio verde, último estágio do nível de subsistência.
As pessoas poderiam percorrer várias trajetórias de desenvolvimento ao longo da vida: de estágios menos complexos para mais complexos; de condições primitivas de sobrevivência para condições de viver e extrapolar o mundo da internet; de condições provincianas para a vida na aldeia global e no ciberespaço. Em resposta a condições de vida, estágios podem emergir, regredir ou esmaecer.
Essas informações da evolução do bicho homem ajudam a entender o atual estado de coisas. Ajudam a constatar possibilidade preocupante das coisas desandarem e inviabilizarem a civilização do homo sapiens. A questão urgente é o desafio de evolução para o estágio verde, para efetivar integração e harmonização com a “aldeia global”, como se ela fosse a família ou comunidade! Evolução suficiente para se entender que não há viabilidade para individualismos e imediatismos na construção de objetivos de sobrevivência e bem-estar. Evolução de modo a prevalecer condição de imunização contra o glamour sofismático da propaganda e publicidade que induzem uma cultura de consumismo, imediatismo e crença na felicidade humana pela posse individualista de bens materiais.
“É de interesse do indivíduo humano praticar altruísmo calculista e oportunista de cuidar do bem comum para bem cuidar de si mesmo”.
¹ Clare W. Graves: Levels of Existence: An Open System Theory of Values, Journal of Humanistic Psychology, 1970, 10, pp. 131-155. ² Beck e Cowan: Dinâmica da Espiral.Instituto Piaget, 2000.
A compreensão de si mesmo e da interdependência humana são aspectos que exigem interesse e disponibilidade em refletir, seu artigo estimula a pensar!
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Texto instigante. Parabéns. Tem razão em tudo. Devemos nos preocupar e talvez, incentivar os mais jovens a meditar e reagir ante esta situação.
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É uma situação extremamente de preocupaçpões, pois está difícil de acreditar na capacidade humana de sobrepujar os desafios atuais.
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