Cada um enxerga e vive o mundo com a lente de suas crenças e em consequência faz suas as escolhas. Assim é o algoritmo do viver: crenças conforme percepções e entendimentos; atitudes e comportamentos conforme crenças; escolhas e ações conforme atitudes, comportamentos e oportunidades; instâncias e experiências de vida conforme escolhas e ações.
Há, claro, vínculos que impedem condição de livre arbítrio absoluto para escolhas. A começar pela Natureza onde se vive, em que todos estão vinculados pela inexorável ordem das coisas e seres. Para o indivíduo em si, há a condição genética de nascença, as oportunidades nos processos de criação, educação e inserção cultural, que levam a um ser biológico, cognitivo e psicológico singular, com uma carga própria de propensões e condicionamentos. É sempre com livre arbítrio cognitivo psicológico relativo que o indivíduo desenvolve e usa suas percepções e entendimentos, em confronto com seus instintos, para configurar suas crenças de como lidar com a vida.
Com o estágio de conhecimento e de tecnologias já desenvolvidas, há condições de efetivar sobrevivência saudável e com bom nível de bem-estar material para toda a humanidade, sem prejuízo de sustentabilidade da biodiversidade e da qualidade do meio ambiente. No entanto, o estado de coisas, que as escolhas e ações decorrentes das crenças predominantes têm gerado é preocupante. A situação é a de um genocídio inconsciente, de proporções já ameaçadora à viabilidade da vida humana civilizada. O que se vê é um exagero egocêntrico de minorias privilegiadas na defesa da biodiversidade selvagem, sem nenhuma sensibilidade pela miséria humana predominante pelo mundo afora; a ação raivosa de minorias em defesa de seus direitos, com auto vitimização, culpabilização agressiva das maiorias predominantes e tentativa agressiva de imposição de costumes e comportamentos às maiorias; ações econômicas especulativas que drenam recursos dos já miseráveis países do terceiro mundo; e, assustadoramente, disputas por conquista de domínio econômico militar à custa da destruição de vidas civis nas regiões de litígio e geração incontrolável de miséria para refugiados e migrantes.
O padrão-adaptativo-evolutivo do indivíduo humano abre possibilidade para sua evolução cognitiva e psicológica e pode levá-lo a percepções e entendimentos que acabam por dar racionalidade ao seu egoísmo, levando-o à crença na necessidade de cuidar da vida em esquemas coletivos como de seu verdadeiro interesse. Isso acontece através da interação com o meio em que vive, provocadora de novas vivências e aprendizados, com recomposição de percepções e entendimentos, que provocam sua evolução cognitiva e psicológica e a reorganização de seu viver, de modo a readaptar e inovar suas crenças, ações, atitudes e comportamentos”.

Ora, há vivências de crises, sofrimentos e frustações suficientes, no mundo de hoje, para se perceber e entender que é hora de um salto qualitativo para crenças que propiciem atitudes, comportamentos e ações que possam condicionar um mundo bom de se viver, um mundo onde se disseminem, por toda a humanidade, oportunidades e condições de sobrevivência, segurança e bem-estar. Há que se ter a crença, guiada por uma fé racional, da possibilidade de superar a situação atual de deterioração socioeconômica, causadora de: (i) deterioração que compromete condições de sobrevivência humanizada e chance de ascensão social para os mais pobres; (ii) miséria crônica em países ainda não desenvolvidos; (iii) crescimento do crime organizado, tráfico e consumo de drogas, atingindo e afetando tragicamente o tecido social, aumentando violência e perda de vidas de jovens, provocando destroçamento de famílias e da saúde mental e comportamental pelo mundo afora; (iv) crise das democracias, com surgimento e proliferação de ascensão ao poder de lideranças populistas, com grande perigo da volta de autoritarismos e totalitarismos; e, para completar a desgraceira, (v) descontrole ecológico ameaçando a sobrevivência biológica da humanidade. Há que se ter o firme entendimento de que um sistema só vai bem se cada uma e todas suas partes vão bem. Assim é também com o sistema civilização humana, a sua existência saudável depende de todos e de cada um com ação sinérgica. É preciso, pois, perceber e entender a necessidade de se efetivar o senso de pertencimento à humanidade, nacionalidade, comunidade e família, ambientes coletivos em que se vive e dos quais cada um e todos têm que cuidar. Sendo que já está mais do que constatado, pelo descontrole ambiental que se tem vivido, há que se crer que não dá para afrontar a ordem natural das coisas e seres, não dá para querer o resultado de progresso socioeconômico às custas de meios que agridam a sustentabilidade ambiental e humana.
Em síntese, é preciso perceber, entender e crer, para efetivar atitudes e comportamentos que levem a escolhas e ações guiadas pelo amor racional (“o bem individual não se realiza à revelia do bem coletivo”) e pela compaixão (“face à inexistência de parcialidade e privilégios nos processos da Natureza, cada um entendendo, percebendo e se compadecendo com as condições adversas do outro, que um dia poderão ser as suas”). Assim tem que ser, para o bom funcionamento dos necessários esquemas coletivos de vida e efetivação de sobrevivência saudável e com bom nível de bem-estar material para toda a humanidade!!! Se assim não for, remotas serão as chances de sobrevivência da bicharada humana!!!
É uma luta contra a cretinice ignorante, com a esperança de que, em tempo, o conhecimento liberte a bicharada humana da condenação à miséria, com as pessoas colocando sua vontade e ação na direção de interesses verdadeiros.
Excelente artigo.
Com absoluta clareza mostra que a racionalidade nem tudo pode. Se racionalidade e afetividade estiverem divorciadas o futuro será sombrio
CurtirCurtir
Caro Atair.
Na minha simples visão, passível de incorreções ou revisão, imagino que a descrença vem contaminando uma juventude levada pelo imediatismo e ausência de visão futura, dos sonhos objetivos e desejos naturais de longo prazo. Na minha simples visão imagino que a facilidade da resposta pronta, da racionalidade, da superficialidade encontrada nas mídias sociais digitais vem desfocando a projeção da luz natural que brilha quando se afloram desafios pessoais autênticos. Desfoque que reduz ou elimina a competência da visão crítica, gerando desinteresse, apatia e, em casos extremos, cada vez mais presente, a total falta de perspectiva que leva o indivíduo ao suicídio. Talvez isso tudo também responda o fato de vivermos uma sociedade agarrada à superficialidade midiática, das mensagens não ancoradas na verdade ou nos valores consistentes, resultando, por exemplo, na eleição de presidentes populistas como estamos vendo acontecer ao redor do mundo.
CurtirCurtir