Carta aos Jovens dos Protestos pelo Clima

Caros e certamente bem intencionados jovens, tudo que vocês pleiteiam é justo e da máxima urgência. Mas tudo que vocês denunciam não é tudo que  está fora dos eixos e precisa ser corrigido. Percebam que não é verdadeiramente do interesse de vocês que as coisas se resolvam apenas em parte. A condição de preservação ambiental é necessária para que lhes seja garantido um futuro de sobrevivência e segurança, mas não é suficiente. Há que haver uma abordagem global e integrada; as condições de vida em Gaia são sistêmicas, tudo está encadeado e interdependente. É preciso, e urgente também, lutar pela preservação e sustentabilidade da bicharada humana, nas florestas de pedra! Do jeito que as coisas estão e caminham, a crise socioeconômica está “poluindo” a sociedade urbana com níveis de miséria, violência e bandidagem que tiram as oportunidades de vida não só da maioria pobre e sem condições de ascensão social, mas também da minoria com boas condições de renda. É bom lembrar que é nas florestas de pedra que praticamente toda a bicharada humana optou por viver.

            Caros e certamente bem intencionados jovens, por que esse conservadorismo antropológico que insiste em manter a bicharada indígena em estado de vida primitiva nas florestas selvagens? Por que não lhes reconhecer o direito humano de evoluir, conforme a natural tendência de o indivíduo cognitivo e psicológico usar sua capacidade de percepção e entendimento? Por que não lhes instigar a usufruir do nível de conhecimento e soluções tecnológicas atuais para melhor organizar seu viver, segundo melhoradas condições de sobrevivência, segurança e bem-estar?  Por que privá-los de evolução, já que isso é possível sem o prejuízo de destruição da memória e culto de suas tradições? Não lhes parece arrogante e preconceituosa a atitude de querer mantê-los congelados evolutivamente em seu estado primitivo de vida selvagem, como se fossem fósseis vivos em um museu ao ar livre da história humana? Se se acredita na necessidade de preservação da biodiversidade, respeitando as condições naturais de existir de cada espécie da selva selvagem, então o certo e justo é que se considere assim ser também para a espécie humana que lá ainda vive, respeitando sua natural condição de evolução cognitivo psicológica. Quem sabe daí possam surgir novas e boas soluções para a vida humana em esquemas coletivos, em que, finalmente se respeite a condição sistêmica de que “o bem individual  não se realiza à revelia do bem coletivo” e a condição da necessidade da compaixão, “face à inexistência de parcialidade e privilégios nos processos da Natureza, cada um entendendo, percebendo e se compadecendo com as condições adversas do outro, que um dia poderão ser as suas”. Afinal, em não se conseguindo conter o processo de deterioração de condições de vida humana saudável nas selvas de pedra, a vida na selva selvagem  das civilizações indígenas evoluídas  poderá vir a ser a única alternativa de vida com as condições de preservação ambiental e sustentabilidade que vocês hoje pleiteiam.

            Enfim, entendam que vocês não terão futuro de vida saudável sem a superação da situação atual de deterioração socioeconômica. Ela compromete condições de sobrevivência humanizada para todos e não somente para os mais pobres, que são hoje a esmagadora parcela da população humana. Os resultados, que podem piorar, já estão bem visíveis: miséria e violência crônicas; crescimento do crime organizado, tráfico e consumo de drogas; e crise das democracias,  com grande perigo da volta de autoritarismos e totalitarismos. E, claro, para completar há o descontrole ecológico ameaçando a sobrevivência biológica da humanidade. Há que se ter o firme entendimento de que um sistema só vai bem se cada uma e todas suas partes vão bem; assim é também com o sistema civilização humana. É preciso, pois, perceber e entender a necessidade de se defender e cuidar de todas a entidades em que inserimos nosso viver.

            Caros e bem intencionados jovens, entendam qual é a causa dominante dessa atual situação de deterioração social e incluam sua eliminação no rol de mudanças pelas quais protestam e lutam. Entendam a proporção do dano causado pela atual doentia forma de atuação do atual sistema econômico. Entendam que os abusos rentistas e especulativos, desrespeitam condições de sustentabilidade e saúde socioeconômica. Protestem e lutem pela evolução desse sistema econômico, que sem nenhum prejuízo à livre iniciativa, pode e deve mudar para uma forma de atuação em que o bem individual  não se realize à custa do bem coletivo; um sistema econômico em que os agentes econômicos lucrem, mas vinculados a  produzir bens úteis a condições de sobrevivência, segurança ou bem-estar humano.

Cordialmente, de um pai, avô e professor que, com a mesma boa e honesta intenção de vocês, quer compartilhar percepções e entendimentos, com amor  e compaixão, para ajudar na luta pela viabilidade de um mundo onde nós, bicharada humana, possamos construir e usufruir de condições satisfatórias de sobrevivência, segurança e bem-estar.

Atair Rios Neto São José dos Campos, setembro de 2019.

3 comentários em “Carta aos Jovens dos Protestos pelo Clima

  1. Acho que este texto subestima a capacidade de entendimento dos ´jovens pelo clima´. Acho que eles sabem muito bem dos ´sistemas´. Não são ingênuos como parecem ser considerados. Não se pretende manter os indígenas afastados, separados, sequestrados da vida moderna. Veja o filme Xingu. Os Vilas-Boas entenderam e planejaram muito bem. O filme termina dizendo, pelos prórprios índios, (lembranças minhas podem ser falhas) que: agora, depois de 40 anos do projeto, eles se sentem preparados para auto-determinação com segurança e força, mais ´empoderados e menos frágeis nos embates com a modernidade. Lá dentro já há escolas e postos de saúde e vários outros empreendimentos modernizantes, geridos por eles próprios. Muitas universidades já estão recebendo indígenas formados lá dentro mesmo e que pretendem retornar. Abraços.

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  2. Muito interessante essa carta aos jovens. Creio que poderia ser inclusive mais abrangente: Carta às pessoas de boas de boa vontade.
    No cipoal das informações que circulam na internet há joio e há trigo. É preciso separar o joio do trigo e trabalhar o trigo para que se torne conhecimento.
    A partir dessa perspectiva penso que todos, de um modo geral, estaremos melhor preparados para direcionar nossas energias à construção de uma sociedade mais justa.

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