Ainda Pensando e com Preocupação pelos Jovens: Um Mundo que Deve e Pode Ser

Imagine um mundo onde as pessoas aprendessem bem cedo sobre sua natureza. Um mundo onde se soubesse gerir o viver com naturalidade, para a realização de objetivos que propiciassem processos de vida com saúde e bem-estar. Um mundo onde o natural fosse a busca permanente de evolução cognitivo psicológica, com adaptação e inovação de atitudes, comportamentos, escolhas e ações de vida.

 Esse é um mundo realizável, se as pessoas aprenderem a lidar com suas características humanas, para efetivação de processos saudáveis de vida. Por um lado, aprenderem que é da natureza humana que o ter seja apenas meio para evitar insatisfação, mas não suficiente para garantir satisfação¹. Por outo lado, aprenderem que é também da natureza humana ser condicionada a uma hierarquia de necessidades,² em que condições de sobrevivência fisiológica e de segurança têm que suportar esquemas de convívio social; esquemas de convívio social têm que suportar esquemas de busca de autoestima e de autorrespeito, a partir da utilidade de cada um no ambiente em que vive; esquemas de autoestima e autorrespeito, por sua vez, têm que suportar o autodesenvolvimento e a autoexpressão, que são processos sem fim. Cada um tem que “construir seu edifício de necessidades”, para viver de forma global e integrada a saúde física e mental³. Construir o edifício de necessidades humanas entendendo que não se vive para nele habitar como fim em si, mas sim que nele se habita como meio para  o  fim de viver a autorrealização. Acumular bens e buscar segurança é apenas meio de ter. Toda pessoa sai “programada de fábrica” para sobreviver, com compulsão instintiva por sobrevivência fisiológica e segurança em abundância. O instinto precisa ser regulado pela razão, para evitar a destemperança da gula de ter, descontrolando a construção do edifício das necessidades, como se alicerces e estruturas fossem suficientes, fossem fins em si. Enfim, em síntese, é preciso, primeiro e acima de tudo, alimentar e proteger o corpo biológico; mas a saúde e bem-estar só acontecem se o ente psicológico que somos estiver em autocontrole de se expressar e realizar. O ente psicológico que somos se alimenta de ser e quando isto não acontece tudo desanda, comprometendo a saúde do corpo biológico, o bem-estar e o ânimo.

Nesse mundo realizável, em se sabendo o que se quer realizar, buscam-se poder e bens materiais na medida do necessário do ter para ser. Nele não se vive para acumular poder e riquezas, que são apenas meios, para, sem gula ou avareza, viver. Os meios que são poder e riqueza dependem da obra do que se quer realizar. Para a obra de um empresário, certamente se demandará mais poder de riqueza do que para obras de um profissional liberal, de um professor ou de um político. No entanto, para toda obra nunca se tem empreitada de natureza apenas individual, sempre se dependerá de outras pessoas. Poder sempre será necessário, como instrumento de coordenação de ações individuais para atingir objetivos. Poder que será por hierarquia delegada, ou pessoal por ascendência moral conquistada, e sempre dependerá de capacidade de comunicação e inspiração, para convencer outras pessoas a quererem fazer o que se acredita que deva ser feito.

Nesse mundo realizável, cada um saberá que em cada momento há que se inserir harmônica e construtivamente nas entidades orgânicas de que se faz parte (família, comunidade, nacionalidade, humanidade). Cada um saberá que os fins, isto é, os resultados com que se quer realizar a vida, têm que ser justificados por meios lícitos, que sejam moral, ética e ecologicamente sustentáveis. Nesse mundo se saberá que o mal são meios ilícitos, desarmônicos, não naturais, geradores de reação dolorosa, destrutiva, que sempre compromete condições saudáveis de vida. Nesse mundo realizável, enfim poderá emergir naturalmente um sistema econômico em “um nível de evolução de percepção e entendimento de que o bem individual  não se realiza à revelia do bem coletivo; um sistema econômico em que os agentes atuem sempre em processos sustentáveis, com adição de valor, produzindo bens úteis a condições de sobrevivência, segurança ou bem-estar humano”.

Um mundo realizável, mas não facilmente e nem tão rapidamente. Um mundo para o futuro dos jovens de hoje, dependente de muita ação e esforço de pais e mestres. Por um lado, será preciso se confrontar a mentalidade ainda dominante de crença na possibilidade de realização humana a custa de meios de ter e de consumismo, difundida pela ação de meios de propaganda e marketing. Por outro, conseguir que os  jovens aprendam sobre suas necessidades humanas relativas a ter e ser, para viver de forma global e integrada a saúde física e mental. E tudo tem que acontecer enquanto é tempo, antes que o mundo desande de vez, face à crise socioeconômica e ambiental em curso. Urge que as escolas incluam esse hoje já velho conhecimento na preparação de jovens para a vida!

¹Herzberg, F.: One More Time: How Do You Motivate Employees?, Harvard Business Review, vol 46, no 1, 1968, pp53-62 (Reprint 87507, 1987).

²Maslow, A.: Motivation and Personality.  Harper, 1954.

³Maslow, A.: The Farther Reaches of Human Nature, Penguim Books, 1976.

2 comentários em “Ainda Pensando e com Preocupação pelos Jovens: Um Mundo que Deve e Pode Ser

  1. De pleno acordo. O problema é como implementar isso no mundo real, mondo cane, pervertido pelo capitalismo gerido pelo vil metal e pelos bancos, entidades sem identidade pessoal humana, mas todos S.A. Seria bom identificar atitudes e medidas reais, tipo escolas, ONGs, institutos, universidades etc. que têm sido atacadas e desqualificadas pelos governantes bolsonaristas / trumpetistas do momento. Por agora, é mais premente o ‘ato de resistência’. Logo, nossos escritos, falas, aulas, muito trabalho. Abs

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  2. A crença na possibilidade de se transformar a sociedade para melhor é muito importante porque cria a motivação necessária para se trabalhar em prol de tal empreitada. Não obstante, o “mundo” que teremos não será o ideal, mas o possível e este por estar longe da perfeição pode ser melhorado. Também acredito que o primeiro passo nessa direção é a “reforma” interior de cada um de nós. Instituições, governos, empresas… são abstrações que existem, prosperam e se tornam sólidas porque acreditamos nelas. Os comportamentos, atitudes, ações, etc. de tais entidades são a exteriorização de manifestações das pessoas que atuam em suas engrenagens. Portanto, somente a “reforma do Intelecto”, conforme defendia Espinoza, poderá arejar o atual ambiente sombrio que reina mundo afora. Segundo esta ótica é forçoso admitir que existe espaço não apenas para evoluir mas também para regredir, pois nada está tão ruim que não possa piorar.
    Olhar a questão por este ângulo reforça a validade de se empreender esforços para correção de rota na busca de um futuro melhor.

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