HÁ BOAS RAZÕES PARA A FALTA DE COMPETITIVIDADE TECNOLÓGICA NO PAÍS

O atendimento competitivo de mercados demanda organizações de negócios eficazes e inovadores, que se sustentam em resultados de desenvolvimentos e inovações tecnológicos, que por sua vez se sustentam em desenvolvimentos científico-tecnológicos, via-de-regra. Para que se efetivem condições de competitividade tecnológica no país, o relativo sucesso alcançado nas academias, para o subprocesso de pesquisa científica e tecnológica, tem que desencadear sucesso que se repita nas outras partes do processo, para efetivar soluções para o domínio tecnológico competitivo nas empresas.

No “jogo” do desenvolvimento tecnológico, as diferenças nos resultados previstos para cada um dos seus três subprocessos acarretam características diferentes nos mesmos, quanto à constituição e forma de lidar com recursos e atividades humanas, técnicas, comerciais e financeiras. Por isto mesmo, cada um destes subprocessos exige tratamento organizacional distinto:

(i) O subprocesso empresarial de produção e comercialização demanda unidades organizacionais que atuam a partir de certeza de existência de mercados, de produção com produtividade realizável em decorrência das condições existentes de acesso e domínio tecnológico, assim como de condições de investimento e imobilização de capital que possibilitem o estabelecimento de preços nos produtos e serviços que levem a um retorno rápido, com lucratividade compensatória.

(ii) O subprocesso de desenvolvimento tecnológico demanda unidades organizacionais que atuem a partir de conhecimentos, métodos e experimentos científicos e tecnológicos, para o desenvolvimento de resultados que suportem soluções de produtos, processos e serviços que sejam, por sua vez, soluções melhoradas ou originais para a competitividade no mercado criado pelas necessidades de sobrevivência, segurança e bem-estar das pessoas. A natureza da atividade demanda elasticidade de prazos e custos, com riscos quanto à viabilidade econômico-comercial dos resultados desenvolvidos. Os investimentos são com imobilização de capital e retorno no médio prazo. O necessário zelo com custos e prazos envolvidos não pode comprometer a eficácia dos resultados buscados para aplicações de produção e comercialização.

(iii) O subprocesso de pesquisa científica e tecnológica demanda unidades organizacionais que atuam a partir do pressuposto que sua missão é produzir conhecimentos, métodos e experimentos que contribuam para desvendar e lidar com a Natureza. A atuação de dirigentes e equipes deve proteger a liberdade de escolha e de ação nas atividades de pesquisa, portanto, é pela exceção que há estabelecimento de programas e projetos engajados em processos de desenvolvimento tecnológico de produtos e processos, havendo dificuldade em vincular competitividade futura com resultado de pesquisa tecnológica, ou seja, comprovação do retorno do investimento. Há uma grande dificuldade de compromissar planejamentos e direcionar buscas de aplicações, isto é, compromissar objetivos, prazos e custos, devendo haver tolerância com o fracasso eventual ou sucesso parcial.

Pelas características dos subprocessos básicos no jogo do desenvolvimento tecnológico e correspondentes características de soluções organizacionais, constata-se a oportunidade e necessidade de se ter intermediação entre as academias e o mundo empresarial, para a efetivação plena do subprocesso de desenvolvimento tecnológico. Isto é, efetivação completa do “meio de campo”, para localizar, analisar e avaliar oportunidades de aproveitamento de desenvolvimentos científicos e tecnológicos que foram feitos em instituições de pesquisa e que tenham conteúdo para gerar exploração de processos, produtos ou serviços.

A análise do contexto no Brasil, leva à identificação de dificuldades significativas:

(i) O empresariado, com raras exceções, se acostumou a atuar desfrutando de protecionismos, decorrentes de políticas governamentais (substituição de importações, reservas de mercado, subsídios), que lhe permitiam ganhar competitividade em mercados repartidos e cativos, comprando, em países desenvolvidos, tecnologias já testadas, usadas e, muitas vezes, já obsoletas. Esta situação condicionou cultura e modelos mentais que dificultam ao empresariado saber e perceber o que, por que e como fazer para lidar com processos de desenvolvimento tecnológico e inovação. Há uma generalizada situação em que se confunde engenharia de produtos e de processos, assim como compra de equipamentos, com desenvolvimento tecnológico; esta situação embora crie um parque fabril não gera indústrias que dominem os processos relevantes de seu “metier”. Face ao processo de globalização e conseqüente abertura de mercados, não há mais oferta de tecnologias competitivas; quem as tem as utiliza diretamente face à possibilidade de acesso e conquista de mercados em nível mundial!

(ii) Existência de poucas organizações atuando no subprocesso de desenvolvimento e inovação tecnológicos, com dois agravantes. Primeiro, a maioria delas é governamental ou estatal com quase nenhuma flexibilidade organizacional para as necessárias eficiência e eficácia na atuação. Segundo, a clientela, destas poucas organizações existentes, é predominantemente governamental e estatal, em programas e projetos especializados considerados estratégicos (agricultura, saúde, aeroespacial, etc) com demandas de estudos e experimentos que apenas pela exceção chegam a propiciar condições para a fase de produção e comercialização de bens e serviços para o mercado.

(iii) As organizações de pesquisa científico-tecnológica, Universidades e Institutos de Pesquisa, estão fortemente engajadas com a comunidade internacional de países desenvolvidos, com acentuada tendência de sobrevalorizar a pesquisa básica, realizando pesquisa aplicada ainda pouco comprometida com desvendamento e aproveitamento de peculiaridades do ambiente físico e biológico da região em que o país se encontra e resistindo à pesquisa engajada na busca de resultados tecnológicos práticos, sendo comum se fazer a pesquisa pela pesquisa. Nas agências de apoio à pesquisa e desenvolvimento científico-tecnológico há excesso de influência dos pesquisadores dessas organizações de pesquisa científico-tecnológica. Estes pesquisadores estabelecem critérios e procedimentos para carreiras e para julgamentos de propostas, criando efeito de realimentação, sobrevalorizando a pesquisa básica e publicações em periódicos estrangeiros, em detrimento de um balanceamento que permita dar reconhecimento e valorização a atividades engajadas em projetos ou programas de desenvolvimento tecnológico. Nos modelos mentais das elites dirigentes dessas organizações de pesquisa científico-tecnológica, parece não se saber e perceber que: produtos e serviços para prosperidade socioeconômica resultam de processo completo, conseqüência de domínio integrado através dos agentes de cada uma das três fases do processo de desenvolvimento tecnológico. Pode-se dizer que, na situação atual, este forte engajamento à comunidade internacional de países desenvolvidos, com prioridade para publicação em periódicos estrangeiros, antes de se explorar as possibilidades de propriedade intelectual e de uso em nosso país, está certamente contribuindo para o processo de desenvolvimento tecnológico desses países desenvolvidos, em detrimento do desenvolvimento de nosso país; é a situação de cretinice inconsciente de subnutridos tirando da própria boca para alimentar supernutridos. Ao mesmo tempo, há o fenômeno novo e complicador da atuação das Agências de Inovação, que radicalizando o papel de Núcleos de Inovação Tecnológica que a Lei de Inovação lhes faculta, têm agido com agressividade que impede a correta apropriação da propriedade intelectual pelas empresas em projetos de parcerias; boa parte destas Agências acaba patrocinando o desenvolvimento de produtos nas instituições científico-tecnológicas públicas no afã de gerar patentes, sem cuidado com o valor econômico, em detrimento do desenvolvimento tecnológico conjunto com empresas para resolver problemas tecnológicos bem estabelecidos.

As empresas precisam do suporte de instituições de intermediação para efetivar relacionamento produtivo com as instituições geradoras de conhecimento científico tecnológico. As empresas de um dado setor precisam de instituição que atue com interesse focado. A missão de universidades e centros universitários acarreta modelo organizacional, tempo de respostas de processos de trabalho e carga de trabalho para seus pesquisadores que dificultam relacionamentos diretos.

Há falta, pois, de empreendimentos cooperativos, comprometidos com seu respectivo setor industrial, que executem pesquisa e desenvolvimento (P&D) pré-competitivos, com enfoque pragmático e objetivando resultados para a competitividade deste setor. Este tipo de empreendimento proveria:

(i) Apoio ao setor em processos para prospectar, avaliar, desenvolver, certificar e incorporar tecnologias avançadas e inovadoras à base tecnológica do setor, para que o conjunto de suas empresas tenha condições necessárias de manter produtos e processos inovados, com competitividade.

(ii) Em especial, condições de apoio às pequenas e médias empresas do setor, para viabilização de domínio tecnológico atualizado e inovado dos processos e produtos específicos de seus negócios.

(iii) Condições de acesso e de gestão eficiente e eficaz de recursos de programas governamentais de suporte a desenvolvimento tecnológico.

Na cadeia de negócios necessários para transformar conhecimento em domínio renovado e inovado de tecnologias para a competitividade de produtos e serviços da economia, há falta, também, de um elo intermediário catalisador, agilizador. É o elo correspondente a organizações de gestação e inovação tecnológica de negócios.

Há o potencial e a necessidade para este tipo de organização, para cuidar do negócio de gestação e inovação tecnológica de empresas. As necessidades e utilidade que justificam e sustentam sua existência são:

(i) Localizar, analisar e avaliar oportunidades de aproveitamento de desenvolvimentos científicos e tecnológicos feitos em instituições de pesquisa, com conteúdo de inovação para gerar propriedade industrial e com condições de exploração empresarial em inovação de processos, produtos ou serviços.

(ii) Agenciar o acesso a capital de risco e de fomento para os custos de preparação de patentes e seu registro.

(iii) Agenciar a comercialização de patentes, através de licenciamentos ou venda de direitos.

(iv) Agenciar o acesso a capital de risco e de fomento para viabilização da exploração empresarial de inovações tecnológicas.

(v) Assessorar tecnologicamente a fase empresarial de aproveitamento e implementação de inovações tecnológicas.

(vi) Assessorar empresas para a definição da sua “Estratégia de Domínio Competitivo” e para implantar e manter programas de inovação tecnológica.

(vi) Assessorar a organização de empresas de base tecnológica.

Enfim, na atual conjuntura, constata-se que no subprocesso de produção e comercialização, isto é, o das empresas, há falta generalizada de domínio tecnológico dos negócios e de abordagens para obtê-lo. No subprocesso de desenvolvimento tecnológico, falta uma organização melhor nas empresas e no espaço de intermediação com universidades e institutos de pesquisa. No subprocesso de pesquisa vive-se realidade de forte engajamento com a comunidade internacional, faltando maior engajamento com pesquisa tecnológica voltada para o ambiente físico biológico do país e realismo de atitude para efetivar condições de parcerias com empresas para projetos de desenvolvimento e inovação tecnológicos.

Portanto, da forma como se joga o processo do jogo do desenvolvimento tecnológico no país, o ataque está capenga, querendo ganhar o jogo prescindindo do meio de campo, e a defesa tende a agir como se pudesse jogar sozinha!

Um comentário em “HÁ BOAS RAZÕES PARA A FALTA DE COMPETITIVIDADE TECNOLÓGICA NO PAÍS

  1. Atair, você certamente percebe que no seu artigo está faltando um subprocesso, o de desenvolvimento de produto. Ele recebe informaçoes do subprocesso de desenvolvimento tecnológico, e são seus resultados que permitem a comercialização e produção.

    Um outro ponto é que o subprocesso de pesquisa científica-tecnológica poderia ser quebrado em dois, para deixar clara a separação que você depois faz entre pesquisa básica e pesquisa aplicada.

    A separação acima permitiria acentuar o forte link entre pesquisa aplicada e desenvolvimento tecnológico, que é o que viabiliza a interação universidade-empresa quando ela existe.

    Um ponto que você não aborda nas 3 “dificuldades significativas” listadas é que o papel do instituto de pesquisa no Brasil está comumente fora do seu contexto de principal intermediador do conhecimento novo com as empresas, já que o comportamento dos institutos em grande parte é o de ser mais uma “universidade” ou então ser um prestador de serviços comoditizados.

    Por último, o que mais me preocupa atualmente é a universidade pública se fazer de empresa, tentando desenvolver produto, destruindo o potencial de startups ao mesmo tempo que “reclamam” que estas não vingam. Nesse processo, os esforços são aplaudidos como significando sucesso, apesar de no fundo representarem fracassos, pois com certeza esses “produtos” não conseguirão ser produzidos em escala para atender a todos os participantes relevantes do mercado, apenas algumas instituições públicas, além de que fica a pergunta de como será a manutenção desses “produtos” e seus custos reais. Pesquisador não é desenvolvedor de produto … São atividades distintas. E pesquisador que é servidor público, junto com bolsistas, trabalhando em potenciais produtos, eliminam empregos de alto valor em startups.

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