Será que tudo que se pode imaginar pode acontecer, pode fazer parte da realidade? Conforme Spinosa¹ percebeu, entendeu e concluiu, o mundo de Deus está completo e acabado; tudo existe de uma vez e completamente. O mundo seria formado de infinitas instâncias, concatenadas e eternizadas como as cenas de um filme. A realidade que se vive seria o vivenciar de trajetórias de instâncias, que cria a sensação de passado, presente e futuro, propiciando a ilusão da existência do tempo².
Imagina-se, então, que as trajetórias de instâncias vivenciadas por indivíduos, em famílias, comunidades e nações, são o resultado de processos biológicos, psicológicos, de criação e educação, assim como de condições econômicas, políticas, sociais e culturais. As trajetórias individuais são sempre em função das trajetórias do coletivo em que se está inserido. Segundo a lógica de causa e efeito, ação e reação e inércia acumulada, as trajetórias de instâncias vivenciadas seguem um curso, em que “o presente” é o efeito acumulado “do passado” e em que não se muda de rumo ao bel prazer e instantaneamente. As instâncias que se vivenciam estão e estiveram lá desde sempre. A instâncias que se poderá vir a vivenciar serão gradativamente o efeito e condicionadas por crenças predominantes de como as coisas funcionam, pois as crenças vinculam atitudes e comportamentos, que por sua vez vinculam escolhas e ações, que por sua vez causam, na medida do possível, mudanças nas trajetórias de instâncias e experiências de vida.
Constata-se que as instâncias do momento histórico da humanidade são as de guerras fomentadas pela indústria armamentista, crises socioeconômicas provocadas pelos desvios especulativos do capitalismo, intolerâncias religiosas, crises ambientais, crises comportamentais de consumismo e de uso de drogas; uso infantilizado e futilizado das redes sociais; e por aí vai. É muita energia empurrando para um precipício, para a auto extinção da parte “desenvolvida” da humanidade. O prognóstico imaginado é o de queda livre para se vivenciar instâncias de um apocalipse que poupará, quem sabe, apenas os cafumangos e nativos que estão longe da chamada “civilização humana”, vivendo blindados em seus habitats naturais ainda selvagens.
Há que se considerar que as instâncias vivenciadas hoje em dia o são, também, em ritmo acelerado, face à globalização, tecnologias de comunicação e às redes sociais. Sendo assim, imagina-se que as trajetórias de instâncias a vivenciar podem levar rapidamente a mudanças para o bem ou para o mal. Dá para imaginar que estão lá no universo de instâncias, desde sempre, aquelas em que os ambientes de vida coletiva são de paz, harmonia, progresso e sobrevivência segura e plena de bem-estar. Dá para imaginar que estão lá e que poderão ser vivenciadas instâncias em que predominam abordagem ecológica e trabalho em rede pelo bem comum; com predomínio de valores éticos e morais
Em tempo, Spinosa também entendeu e concluiu que “tudo que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir ou ser concebido”. Somos e estamos em Deus com nossa realidade de instintos e capacidade cognitiva, sujeitos à lei e ordem do mundo das instâncias, tendo que vivenciar os efeitos e reações causados por nossas ações. E sendo assim, já que somos e estamos em Deus, as instâncias que podemos e viermos a vivenciar serão e estão em Deus! Todos estamos e somos em Deus, os santos, heróis e bandidos! E sendo assim que é e assim que tem que ser, imagina-se que no final tudo haverá de “dar certo”!!!
Ficção ou realidade imaginada? Quem viver, vivenciará.
¹Spinosa: Ética, Editora Autêntica, 2009.
Baruch Spinoza, judeu nascido na Holanda e radicado na Espanha profetizou que Deus é tudo e tudo é Deus, seja no mundo material ou no mundo dos seres vivos. Foi a conclusão a que ele chegou filosofando sobre a realidade que seus sentidos permitiram detectar. Nossos parcos conhecimentos atuais do Universo, consistindo de galáxias em número infinito, nos deixam maravilhados ao sabermos que somos criaturas de um Criador. Cristo, encarnação de um espírito evoluído, afirmou: “a casa de meu Pai tem muitas moradas”.
CurtirCurtir