Velhos, Estigmatizados, Desperdiçados, Inviáveis

Em tempo, a mensagem é para os jovens de hoje. Não é um desabafo de velhos choramingões, mas um alerta para os que serão os velhos de amanhã. Um alerta amoroso e compassivo para, em tempo, cuidarem de seu futuro, que certamente não haverão de querer ser o presente dos velhos de hoje.

Velhos estigmatizados! Embora haja um exagero de estigmatização afetando os velhos da atualidade, devido à velocidade com que os costumes e tecnologias têm mudado, é natural que assim seja. É natural que os jovens contestem o passado, que tenham resistência e compulsivamente busquem cancelar opiniões e comportamentos que reflitam ideias e costumes que querem negar ou considerem já sem validade. No entanto, é bom lembrar que “vocês jovens de hoje são os velhos de amanhã”. Lembrar que as experiências e nível de percepções e entendimentos que têm não são suficientes para avaliar as lutas e dificuldades que os velhos enfrentaram para lhes entregar o mundo como ele é hoje, com todas suas qualidades e defeitos. Por uma questão de racionalidade, é recomendável respeitar, valorizar e tolerar os velhos, buscando cultivar interação afetiva com compaixão e atitude de aprendizes, de modo a conquistar o benefício de cumulativamente incorporar percepções e entendimentos e  evoluir cognitiva e psicologicamente, para melhor lidar com suas vidas jovens e o viver com sustentabilidade no mundo de hoje e de amanhã.

Velhos desperdiçados! Pois é, o aumento da longevidade tem levado a esta situação. Duas situações se destacam. Em uma primeira, a dos velhos aposentados, que embora hoje em dia se aposentem depois dos sessenta, têm ainda  horizonte longo de plenas condições mentais e físicas. Em uma segunda, o problema é mais grave, compreendendo a dos ainda não tão velhos e que são “mandados para casa”  antes de suas aposentadorias, por empresas com políticas de renovação e ou de eliminação de salários mais altos; neste caso a situação é particularmente grave para a parcela dos menos qualificados que, em não conseguindo se reempregar, além de serem jogados na miséria não conseguem continuar contribuindo para a previdência e garantir suas aposentadorias. Em ambas as situações, tem-se uma situação de desperdício, que é gritantemente absurda no caso dos mais qualificados, face à carência deste tipo de capital humano no país. É  natural que essa turma da “terceira idade” não tenha mais vigor e disposição para enfrentar a carga de trabalho e estresse requeridos pelos cargos de tempo integral da estrutura normal das empresas; é natural também que queiram ter  chances de desfrutar de lazer e de atividades que nunca estiveram ao seu alcance nos anos de vida profissional ativa. E sendo assim, é melhor cuidar de efetivar condições especiais para lidar com essa turma. Há que lhes propiciar condições especiais de lazer e atividades socioculturais; há que também se implementar legislação que possibilite aproveitamento em condições flexíveis de trabalho e de desoneração com obrigações trabalhistas para as empresas, de modo a que haja um encontro de interesse que possibilite oportunidades para os que desejarem e precisarem continuar trabalhando. Vale a pena observar as  Academias, que têm implementado os cargos de pesquisadores e professores eméritos ou seniores, assim como têm recorrido a fundações para parcerias com a inciativa privada e atividades de extensão, que possibilitam oportunidades para os já aposentados.

Velhos inviáveis! Velhos da quarta idade: velhos longevos sem qualidade de vida, com saúde deteriorada; com poder aquisitivo corroído por perda de rendimentos e gastos com saúde; e em condição solitária de vida face às condições atuais de vida familiar em que, via de regra, já não se conta com a proximidade, disponibilidade e apoio material e afetivo de descendentes, no dia a dia. Velhos que rapidamente se tornaram analfabetos tecnológicos e não conseguem lidar com as tarefas e atividades da vida doméstica e social. Velhos pobres, frutos da desigualdade socioeconômica, que apesar de condições miseráveis de vida teimosamente chegaram à quarta idade, embora capengando em condições de saúde. E sendo assim uma situação de perda de condições humanas de vida autônoma, há que haver criação de ambientes comunitários que efetivem condomínios residenciais para abrigar esses velhos inviáveis da quarta idade; condomínios que possam se viabilizar por inciativas público-privadas, motivadas por compaixão e amor de humanos com humanos!

Jovens descendentes e amigos jovens, torcendo pelo futuro de vocês velhos!!!

2 comentários em “Velhos, Estigmatizados, Desperdiçados, Inviáveis

  1. Caro Atair, venho cumprimentá-lo pelas reflexões apresentadas por você. Revela uma capacidade extraordinária de previsão do futuro com sólidos fundamentos. Grande abraço.

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  2. “Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos corações sábios.”
    (Salmo 90:12)
    Muitos dias bem vividos levam à sabedoria madura. E desprezar o repositório de sabedoria dos nossos idosos é atitude duplamente tola, de quem não sabe e não quer saber.

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